O Consumo de Grãos e o Colapso de Civilizações

De Marsha Hanzi

Mark Shepard é um agricultor e permacultor em Wisconsin, nos Estados Unidos, embarcado num caminho inusitado: transformar o ecossistema local num sistema de produção agrícola comercial.

Ele argumenta que a produção de grãos levou as grandes civilizações ao colapso: as culturas anuais em grande escala exigem o revolvimento constante da terra, levando-a fatalmente à degradação (com a exceção do arroz, que ocupa os brejos). Terra degradada significa fome. Isto se vê hoje no cenário mundial da agricultura. No final das contas, os transgênicos foram inventados para resolver a necessidade de tornar as plantas mais resistentes a doses maciças de herbicidas, numa tentativa desesperada de manter a produção da agricultura industrial.
Mark Shepard fez o caminho oposto: ele argumenta que cada região tem árvores produtoras de carboidratos e óleos, que hoje são produzidos pela agricultura industrial na forma de milho, trigo, e soja. No caso da região dele, seriam uma variedade local da castanha portuguesa, cujos frutos sustentavam comunidades inteiras na Itália, e a avelã, pequeno arbusto cujas nozes produzem grandes quantidades de um óleo delicioso.Marizá Epicentro 

As proteínas serão fornecidas pelos animais que pastam confortavelmente entre as árvores...

Ainda há outros elementos que fazem parte deste conjunto: no caso dele, as maçãs e os cogumelos, que crescem nos detritos em baixo das macieiras. (Ele às vezes ganha mais com os cogumelos espontâneos do que com as maçãs.) A vantagem deste modelo agrícola é que o investimento inicial dura anos, fazendo com que Mark seja um agricultor que festeja lucros no final do ano, enquanto seus vizinhos, produtores de milho e soja, se endividam cada vez mais.

Este modelo tem mais uma vantagem: fornece uma alimentação mais saudável do que o duplo de milho e soja, envenenados e transgênicos, que dominam a alimentação industrial atual.

Mas o que é mesmo uma alimentação saudável? Hoje impera muitas dietas contraditórias: o veganismo, que exclui todo produto animal, o “paleodieta” que imita a dieta dos nossos antepassados, o macrobiótico que evita alimentos crus, os crudívoros que só consomem alimentos crus...

Nos anos 30, Dr. Weston Price, um dentista, viajou o mundo para descobrir qual era o segredo da saúde dos povos antigos, que tinham dentes impecáveis, enquanto os povos modernos estavam em franca degradação. A descoberta foi surpreendente: todos estes povos “primitivos” consumiam gorduras animais, carne de órgãos (fígado, coração,etc.) caldos de ossos em forma de sopas, e poucos grãos, estes normalmente fermentados ou brotados. As pesquisas subseqüentes mostraram que os grãos (milho, arroz, feijão, trigo) contêm fitotoxinas que impedem uma boa assimilação de minerais, levando à degradação dos ossos, dos dentes e da saúde em geral. Em adição, o óleo vegetal, invenção moderna, não contém as graxas saturadas, necessárias para uma saúde vigorosa (inclusive a Omega 3).

Ironicamente, os problemas cardíacos na população começaram depois da introdução de óleos vegetais na alimentação humana. Antes de 1921 não foi registrado nos Estados Unidos um caso sequer de enfarte! Seguindo o fio da meada, Dr. Price descobriu que a introdução de óleos vegetais na alimentação foi um artifício da gigantesca indústria de milho nos Estados Unidos, baseando-se em estudos manipulados, do mesmo jeito que o gigante Monsanto manipula hoje os estudos sobre os transgênicos. O argumento que os óleos poliinsaturados (de soja, milho, canola, etc., inclusive a margarina) são mais saudáveis simplesmente não é verdade!

Dr. Price mostrou que a gordura animal (de animais que comem muito verde, não os confinados) é necessária para o bom empenho do cérebro. A falta destas gorduras essenciais pode levar a tendências violentas e a outros distúrbios de comportamento, até retardamento mental.

Assim o monopólio na agricultura dos grãos (em grande parte para produzir óleo vegetal e alimentos para animais) não só destrói as terras- está destruindo a saúde!

O Consumo de Grãos e o Colapso de CivilizaçõesAlém disso, aqui no Sertão, o milho e o feijão, a base da alimentação, são culturas arriscadas. São as primeiras a falhar na falta de chuvas...

Felizmente na região de Marizá ainda temos nosso milho local, adaptado aos solos arenosos e ao clima incerto. Chamado “catetinho”, este milho é redondo e duro, excelente para fazer cuscuz. Infelizmente, com a seca histórica do ano passado (2012), quase perdemos esta raça e alguns agricultores se viram forçados a plantar milhos comprados no comércio, de origem incerta. Como o milho pode cruzar com outros milhos a uma distância de até dois quilômetros, nossa raça está ameaçada de contaminação por transgênicos. Assim este material genético de valor incalculável está em perigo de se perder.

Seguindo o raciocínio de Mark Shepard, o que seriam as árvores do Sertão que poderiam substituir estas culturas anuais? O fornecimento de óleos é facilmente coberto pelo licuri, o coco (que temos nos brejos) e o caju, nativo desta região (e uma cultura comercial importante), sem falar da gordura animal, incluindo a manteiga. Temos muitas frutas que podem ajudar no aporte de vitamina C, mas ainda não encontro uma solução para o aporte de amido (que na região da mata seria fornecido pelas bananas, pupunhas, jacas, etc.). Acredito que nosso amido ainda é a mandioca, como era para os índios, já que é uma cultura que favorece as árvores. O milheto e o sorgo, grãos de regiões mais secas, não são uma solução aqui, por serem dizimados pelos passarinhos e altamente esgotantes ao solo.

Quanto ao feijão, o feijão de corda, originário da África, é bastante resistente à seca, e melhora o solo. O guandu (um feijão da Índia, arbusto grande) dura vários anos, e fornece um feijão verde com teor de 30% de proteína. O feijão “de moita”, a carioquinha, etc. é muito difícil de produzir aqui, já que é originário de climas mais úmidos, mas, ironicamente, é o mais consumido.

Ainda contamos com a beldroega nativa (a portulaca “onze horas”), apreciada por todos os animais (inclusive nós!), que cobre os campos com belas flores amarelas e vermelhas, fornecendo enormes quantidades de pólen para as abelhas. É o alimento básico dos nossos porcos, e vai para nossa mesa na forma de tortas, farofas, e refogados.

Acabamos de aprender que a palma (uma cactácea que serve de alimentação) pode ser transformada em farinha, oferecendo outro alimento básico para a mesa. Todos os animais (inclusive as galinhas e os coelhos) apreciam a palma picada, que é também servida de vez em quando na nossa mesa em forma de farofa e torta. Nossa terra está plantada inteiramente com a palma, boa companheira para as outras culturas, representando também uma cultura comercial para as épocas de seca, quando falta o alimento para o gado.

Ainda plantamos campos “de boutique” de milho adubado com composto, mas com nosso clima secando nitidamente, as chances de colher são cada vez menores. Quando olho pela cerca para os campos dos vizinhos, arados e sujeitos aos ventos quentes, sei que vamos ser obrigados a encontrar outras soluções para a nossa alimentação, ou fechar as portas. Esta solução vai ser de “desmamar” da dependência dos grãos e voltar para uma dieta (humana e animal) que aproveita melhor as culturas mais adaptadas ao nosso clima. Precisamos aprender a integrar estas culturas com as árvores, inclusive as forrageiras, ao contrário do que acontece hoje, onde o manejo da mandioca, por exemplo, em campos abertos e rigorosamente capinados, degrada violentamente o solo. Pior ainda, caatingas inteiras estão sendo desmatadas para plantar capim!

Visto a incrível vigor dos nossos animais no Epicentro, onde a saúde do solo é zelada, com a vegetação mantida no auge do crescimento, acredito que estamos aproximando um novo modelo agrícola para esta região do Sertão, permitindo uma evolução do solo e da vegetação, fomentando a saúde dos animais e das pessoas, cada ano mais. É o antídoto para a degradação generalizada que ocorre hoje na agricultura convencional e sobretudo aqui no Sertão.

 

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