Oho! Aha! - O Processo de Descoberta na Agricultura

Contrário à agricultura tradicional, que se repete a cada ano, a agroecologia é um processo constante de evolução, tanto do sistema quanto da compreensão do agricultor. É excitante e angustiante, já que não há resultados garantidos. Cada ano é diferente, já que o sistema está em constante mutação.

Mas têm momentos neste processo onde surgem súbitas percepções que podem abrir novas linhas de trabalho, novas formas de manejo. São de dois tipos: “Oho”! Quando surgem indagações novas, e “Ahá” quando surgem clarezas novas.

Muitos destes momentos têm acontecido ao longo destes sete anos. Como estamos tateando em direção a uma forma mais silvestre de agricultura numa região onde não há referências (terras arenosas no semi-árido), o processo é lento e complexo.

Está havendo, porém, um efeito cumulativo neste processo, de onde surge um estilo novo de trabalho composto de muitos pequenos passos.

Respeitamos e aproveitamos da sabedoria dos vizinhos, baseada em longos anos de convívio com este clima. Mas, ao mesmo tempo, almejamos muito mais do que as estratégias locais providenciam. Visamos a evolução constante da fertilidade do solo e a biodiversidade, enquanto a agricultura tradicional local, baseada unicamente na produção de milho, feijão e aipim, se mantém num processo lento de degradação do solo e o resultante desmatamento de áreas novas, assustadoramente acelerado nos últimos anos, para compensar a lenta queda em produtividade. Nestas terras de produção marginal não há espaço para os filhos, que se vêm obrigados a invadir as matas restantes nas encostas das serras para fazer suas novas roças, resultando em desmatamentos erosivos desastrosos.

Assim, nosso ponto de partida é: Como podemos ter produção alta, com produtos de magnífica qualidade, levando, ao mesmo tempo o sistema para estados cada vez maiores de fertilidade e biodiversidade, com um mínimo de trabalho. É a partir desta indagação que surgem os momentos “Oho!” e “Aha!”.

Nos primeiros anos seguimos a estratégia que aprendemos de Ernst Götsch, o mentor do movimento agroflorestal no Brasil: implantar núcleos com representantes de cada fase sucessional, removendo ao mesmo tempo as plantas de uma fase sucessional anterior (neste caso os matos pioneiros).

Esta estratégia não funcionou nestas areias brancas. Tivemos germinação perto de zero, e nenhuma planta introduzida conseguiu criar uma cobertura do solo parecida com os matos originais.

Assim começou um processo intenso de observação do que estava acontecendo. O primeiro mato a aparecer é uma planta aromática chamada “batônica”, detestada pelo agricultor porque suas ramas fortes se enroscam nos arados. Mas percebi que esta planta estava cumprindo um papel de cobertura. Crescia nas chuvas, morria, deixando uma camada de matéria orgânica no solo. Crescia de novo no ano seguinte, deixando outra camada durante os meses secos. No terceiro ano começavam a aparecer outros matos, as leguminosas. “Aha!” é esta a estratégia da Natureza!

Deixei a batônica tomar conta da roça, me contentando ao acrescentar mais matéria orgânica: cascas de coco dos brejos vizinhos onde há grandes quantidades de coqueiros. Foram anos frustrantes: os campos tímidos que implantamos tiveram resultados medíocres e os vizinhos riam desta mulher “que não zelava as suas roças, deixando tudo no meio do mato”. Mas preciso ressaltar que foram muito gentis comigo: acho que tiveram muita curiosidade de ver os resultados destas experiências. Hoje são poucas as áreas ainda dominadas pela batônica. A terra já evoluiu além desta primeira fase sucessional.

Outras experiências “Ahá!”: plantamos uma área particularmente pobre com algarobas e cajus. Só sobreviveram uma algaroba e um cajueiro que tinham sido plantados muito próximos, junto com uma palma. “Aha!” A partir desta experiência comprovamos que a algaroba, de má fama por “dominar tudo”, de fato favorece árvores novas, enquanto jovem, antes de abrir copa.

Na fazenda tem um riacho intermitente, que não passava de uma vala quando comprei a propriedade. Em cinco anos se transformou numa linda florestinha. Nas bordas cresce uma planta chamada “pinhão” uma euforbiácea, parente da mandioca. “Aha!” : esta planta cria as condições para as árvores novas! Assim começamos a plantar pinhão nas áreas onde estamos estabelecendo agroflorestas, para ajudar criar a estrutura da floresta futura.

Tem uma planta, chamada “velande” (ou velame) que os agricultores combatem, porque cria monoculturas, impedindo qualquer outra planta no seu meio. A planta é muito aromática, servindo até para incenso. Mas percebemos que o composto dela afastou as minhocas do minhocário! Assim começamos a tirar a velande do campo. Ao mesmo tempo indaguei: porque Deus fez o velande, se afasta as minhocas, tão necessárias para a evolução do solo? Dois anos depois, num núcleo velho de velande perto do riacho, as primeiras árvores da mata começaram a aparecer. “Aha!” A velande cria condições para as árvores do futuro. Depois percebemos o mesmo processo com a cansação, uma urtiga extremamente agressiva, que também cresce em monoculturas, de onde surgem novas árvores.

O pau-ferro é a primeira árvore a surgir no campo. Tudo cresce melhor ao redor, mesmo milho e feijão. “Aha!’ podemos usar esta árvore como elemento nos campos de culturas anuais!

Num verão particularmente seco fomos coletar cascas de coco numa pilha bem alta. O fundo da pilha ainda estava molhado, semanas depois da última chuva. “Aha!” Podemos plantar os coqueiros novos em valas fundas, cheias de cascas de coco, evitando assim (esperamos!) a necessidade de irrigação.

Plantamos um campinho de melão que fracassou. Ocupamos o espaço restante com amendoim. Como era pouca coisa e outros campos mais importantes ocuparam nossa atenção, este campo foi abandonado. Alguns meses depois percebemos que o amendoim estava saudável, mergulhado num mar de batônica! Até agora nunca vimos nenhuma cultura que resistisse à pressão desta planta vigorosa. A colheita foi boa, mesmo sem fazer as campinas e montas que se costuma fazer no plantio de amendoim. “Aha!” Então esta é uma cultura interessante para nos! Deve ocupar um estágio sucessional anterior ao milho e feijão. Um segundo campo comprovou: o amendoim resiste à pressão dos matos, continuando saudável, mesmo sem manejo. Nos campos “malucos”, semeados a lanço, o amendoim é o primeiro a florescer.

Usamos o material da caixa de tijolo dentro do galinheiro (embaixo do poleiro, onde jogamos restos de comida, cascas, sementes de frutas etc.) como adubo para o milho. Nascem muitas coisas deste material, especialmente tomatinho, maxixe, leucena e pinha. “Aha!” Hoje usamos este material como estratégia de plantio destas plantas, que nascem no momento propício.

Algumas experiências “Oho!”:

Este ano choveu muito em março, quando normalmente chove em maio. Arriscamos fazer um pequeno plantio de feijão de corda num piquete previsto para galinhas. Seguiu um mês de seca e esquecemos dos poucos pés de feijão de corda que restaram. Nossa surpresa foi grande de ver que as galinhas comeram todos os matos, deixando os pés de feijão de corda intactos e muito saudáveis! “Oho!” Será que podemos usar as galinhas para manejar feijão de corda? Esta vez plantamos o piquete inteiro de feijão de corda, para repetir a experiência em escala maior.

Num campo cuidadosamente plantado com núcleos de milho e feijão de corda, algumas sementes de feijão caíram no meio de mato, que foi depois roçado. Este feijão nasceu bonito! “Oho!” Será que podemos plantar assim, só jogando as sementes e roçando por cima? Assim começou nossa série de “campos malucos”, ainda em experimentação, mas já dando resultados surpreendentes. A germinação é melhor do que nos campos “cuidados”, a pesar de uma densidade extrema. Ainda não sabemos se vai produzir, visto que foram feitos muito tarde.. Mas com certeza o solo destas áreas vai ser mais rico o ano que vem! Tem uma pista aqui...

Esta possibilidade foi confirmada quando visitamos um campo de 1 ½ hectares plantado por um conhecido chamado Marcelo. No ano anterior ele tinha plantado feijão de porco, que incorporou como adubo. Depois, adubou com fosfato supersimples (fonte de fósforo, cálcio e enxofre - o solo é areia pobre), gradeou por cima e plantou 400 quilos de um “coquetel” de milho, sorgo e vários tipos de feijão para criar massa orgânica (evitando assim a compra de vários toneladas de esterco, que ia custar muito caro). As sementes foram tratados com “super-Magro”, um adubo líquido rico em micro-elementos. Em 50 dias o campo estava coberto com uma vegetação de um metro e meio de altura! O sorgo já estava com flores, o milho estava alto, de talo grosso e os feijões, enterrados dentro desta massa, verdejantes e com vagens. O feijão de corda já estava subindo, se enroscando nos talos de milho, procurando a luz, as folhas duas vezes maiores do que as folhas de um feijão plantado no campo ao lado em monocultura. Ele vai incorporar esta massa como forma de adubação para a cultura seguinte (feijão de corda), mas poderia fazer um corte para feno, já que o sorgo cresce de novo, depois de cortado. Assim ele ainda poderia ter a massa para incorporar depois da fenação.

Nos nossos campos “malucos” as leguminosas dominam, enquanto nos campos do Marcelo o milho e sorgo dominam, refletindo as quantidades de cada tipo de semente escolhidas. (Eu fiz a mistura com a ajuda do pêndulo.) Tenho muita curiosidade de ver se estas policulturas absurdamente densas vão produzir alguma coisa... Será que encontramos a maneira certa de plantar feijão? Se for, vai ser bom demais! Representa trabalho perto de zero (só jogar e roçar por cima) com a terra melhorando a cada ano que passa. Será que podemos transformar o “coquetel”, previsto para ser incorporado com a grade para adubar a terra, em modelo agrícola de produção?
Meu herói, o agricultor Sepp Holzer, da Áustria, faz exatamente isto! Ele usa porcos para revirar a terra, depois joga as sementes das policulturas e volta para colher. Ele afirma que o importante é ter a mistura certa de plantas para cada situação...

O que estas experiências mostram é que a agricultura pode ser profundamente criativa, um processo constante de evolução dos campos e da compreensão do agricultor. Com este processo, cada agricultor acaba criando uma forma de agricultura única, apropriada para aquele lugar. E cada lugar é único, mesmo a pouca distância: tenho mais duas glebas de terra, uma de seis hectares, outra de quatro hectares, que ficam a menos de 500 metros da gleba original, onde moro. Cada tem uma vocação diferente, exigindo estratégias e manejos totalmente diversos do terreno original.
Esta necessidade da criatividade dentro da proposta da agroecologia, onde as soluções surgem a partir da observação da realidade de cada situação, torna a profissão de agricultor uma forma de arte, onde a criatividade é fundamental para o sucesso do sistema. E é esta criatividade que transforma a vida agrícola num processo profundamente prazeroso.

 

Entre em contato

Marizá Epicentro

Tucano - Bahia - Brasil

Marsha Hanzi

Newsletter

Digite seu e-mail e eu lhe enviarei mais informações

© Copyright Mariza Epicentro 2018. Todos os direitos reservados. - Tucano - Bahia - Brasil

Search