Priscila, nosso arado de quatro patas

Num clima semi-árido, com solos arenosos como os nossos, a matéria orgânica não se transforma facilmente em adubo. Fica na superfície seca, oxidando, se transformando em palha, levada pelo vento. Tentamos muitas soluções, tais como incorporar o material com arado de boi, como fazem os vizinhos. 

Os resultados são bons, mas no ano seguinte a terra está mais pobre, contra nossas regras de jogo, que exigem que a terra evolua com cada intervenção.

De fato estamos vendo uma lenta, mas perceptível, degradação dos solos na região toda, só mitigada pelo fato que os vizinhos colocam muitos animais nestes campos durante a época seca - que retornam esterco ao solo - especialmente quando os animais pastam em outro lugar de dia e dormem nos campos à noite, depositando adubos de outros lugares ( que em inglês se chama “roubando o Pedro para pagar o João”.)

Para evitar o arado, tentamos fazer núcleos capinados no meio dos matos, escolhendo os lugares mais ricos.  Em anos de chuva, produziram bem, mas em anos com pouca chuva os matos dominam e o milho sofre. Percebemos que os campos trabalhados na enxada mostram adensamento superficial. E é muito trabalhoso fazer tudo manualmente!

Finalmente, os campos foram tomados por uma leguminosa, maravilhosa criadora de solo, mas com raízes tão tenazes que não dá mais para utilizar aquele campo para as culturas anuais, sem uma aração violenta de trator mesmo. ( Na região da mata isto não seria um problema, já que é possível se alimentar muito bem só das árvores (banana, fruta-pão, pupunha, abacate, etc.), evitando assim a necessidade de aração. Infelizmente, no Sertão, isto não é possível: nossas frutas (manga, caju, umbu , cajá, etc.) são ácidas demais para servir de alimento básico. Somos obrigados a plantar alimentos anuais.

Felizmente, esta leguminosa tenaz é o alimento favorito de porcos!

Este ano, então, resolvemos utilizar porcos para preparar os campos para as culturas anuais (milho, abóbora, melancia, feijão e feijão de corda). Meu herói do momento, Sepp Holzer, diz que “o porco é uma máquina com arado na frente e distribuidora de adubo atrás”. É verdade!  Os porcos afofam a terra sem revirá-la como fazem  os arados. O solo não resseca e recebe ainda mais uma adubação farta.

Preparar cercas à prova de porco não é barato. As cercas precisam ser fortes (usamos telas apropriadas para isto, e que servem também para as cabras), com dois fios de arame farpado na altura do nariz do porco, para não permitir que os animais cavem por baixo.  Mas os porcos se restringem facilmente com um único fio de cerca elétrica.

dscf3549Em cada piquete fizemos uma “banheira” de tijolos, com um ponto de água de beber. Vavá, nosso pedreiro, fabricou uma linda casa móvel, forrada de palha de coqueiro, digna de uma princesa mesmo.

É a primeira vez que criamos animais para abate. Não é nada fácil tomar esta decisão. Mas como não somos vegetarianos, precisamos garantir a qualidade da nossa carne. Isto implica que o animal não sofra em nenhum momento de sua vida. De modo geral, os animais na região não sofrem crueldades, graças a Deus. Mas sofrem falta de pasto na seca, ou confinamento em chiqueiros, no caso dos porcos.

Um porco pastando num piquete amplo é lindo de se ver!  É um animal que pasta, tal como carneiro ou boi. Come enormes quantidades de verde, que torna a carne muito mais saudável. (Um porco no pasto não cria gordura, que confirmamos no primeiro abate, veja mais abaixo.) Mas ao mesmo tempo come raízes e frutas caídas, evitando moscas.

O custo de alimentação diminui em 40% quando o porco está no pasto. É uma economia considerável.  Neste momento – junho de 2012 – estamos com dois porcos, um para abate (e para fazer companhia para Priscila)  e uma matriz, a Priscila, com os primeiros filhotes esperados para julho. Eles comem feitos príncipes e princesas mesmo. Além de receber os restos de arroz, feijão, e macarrão (dividido com os coelhos e as galinhas) - que podem ser em considerável quantidade durante os cursos com bastante participantes - recebem, de manhã, farelo de trigo molhado, misturado com feijão de corda e milho e aipim (mandioca mansa) e palma (a cactácea) à tarde. Também oferecemos muitos pés de beldroega, o mato favorito de porcos, rico em minerais e Omega 3.

Porcos são animais muito limpos. Não merecem a fama de serem sujos. Cobrem-se de lama para se proteger de insetos, mas mantêm suas casas impecavelmente limpas.

Também são animais maravilhosos no convívio. A Priscila adora quando Tião faz cócegas nas costas. Ela deita e oferece a barriga para receber mais cócegas ainda.  São animais com forte senso de família.

Quando se abate um animal “conhecido”, é muito mais difícil do que comprar carne de “um desconhecido”.   Não acho antiético consumir carne. Aquele animal ia morrer um dia de qualquer jeito. O importante é como o animal viveu e como morreu. O fundamental é que não sofra em nenhum momento da sua vida. Assim, não pode perceber o abate, algo que Vavá - quem se dispõe a fazer este serviço - faz muito bem. O animal não percebe que vai morrer.

Quando abatemos o porquinho preto, levamos a manhã inteira para tratar da carne toda, não deixando desperdiçar absolutamente nada.  Vendemos alguns quilos para os vizinhos, que apreciaram muito a carne vermelha, magra e saborosa. O restante foi conservado no sal ou congelado para uso posterior.

Quando comi a carne pela primeira vez, juro que senti o porquinho preto alegre! Senti que estava feliz de se transformar em energia e mais vida, algo que outros videntes têm confirmado: os animais se sentem honrados de servir de alimento.

O próprio Sepp Holzer (agricultor ecológico famoso das montanhas da Áustria) confirma que ele percebe quando um animal se mostra estar de acordo de servir de alimento. Além disso, ele percebe que o efeito da carne de um animal criado e abatido com tranqüilidade é totalmente diferente do que uma carne industrial, num animal abatido numa fábrica de morte.  Sepp afirma que percebe diferenças na qualidade dos seus sonhos! Quando a carne é do seu próprio animal, seus sonhos são tranqüilos e criativos. Mas quando ele come carne fora de casa, seus sonhos são angustiados e improdutivos.

Estamos semeando os primeiros piquetes que foram “arados” por Priscila e o porquinho. O campo está fofo, fácil de trabalhar. Muitos pés de abóbora, melancia, maxixe e melão estão nascendo espontaneamente. Os matos que estão aparecendo são sinalizadores de uma terra rica, assim parece que o solo não regrediu, confirmado pelos vizinhos que dizem que quando o porco sai de um campo, aquela terra sempre é mais rica.

Ainda é cedo para tirar as conclusões. Mas esta época de conviver com estes animais geniais tem sido muito prazerosa!  Acho que estamos nos aproximando de uma forma boa de produzir nossas culturas anuais.

Também estou prevendo a combinação do porco com produção de frutas, especialmente caju (que tem em grande quantidade aqui) e manga.  Acho que esta pareceria com os porcos vai ser de longa duração!


(Nota de novembro, 2012: com o tempo percebemos que nossa propriedade é pequena para uma criação de porcos. Assim a Priscila foi vendida para outro criador, e vamos nos dedicar daqui apara frente a criar somente dois porquinhos de abate. Isto nos da a opção de deixar os piquetes sem animais durante os meses secos.)

 

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Marsha Hanzi

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